ATÉ UM DIA CAMARADA...

Quase trinta anos...tantos anos passados, mas da minha memória jamais se apagará uma célebre viagem a Setúbal. Saímos de madrugada, ainda não havia auto-estrada, eu como pendura inabilitado e desnecessário devido à minha tenra juventude, lá ia empolgado apesar da filas de carros e camiões, sem me pesar este longo caminho, pois sentia-me feliz por saber que iria conhecer e conviver com um mito, o meu ídolo. Passámos por Lisboa, pois o Fausto esperáva-nos em sua casa, aonde o encontrámos e acordámos de um sono rápido, seria suposto que o Zé Mário Branco estivesse com ele, mas o Fausto estremunhado disse-nos que o Zé viria com um amigo do Redondo directamente para Aveiro.Ficámos preocupados porque o Sérgio Godinho já nos tinha decepcionado com a recusa de vir á ultima hora, o Fausto entre um duche rápido e o vestir de umas calças e uma camisa, tranquilizou-nos dizendo que o Zeca nunca falha. Já na estrada a caminho de Setúbal o caminho foi longo, a ansiedade, a angústia e a incerteza eram dilacerantes para mim, não me lembra de ter aberto a boca ou ter esboçado um sorriso com as piadas joviais do nosso novo companheiro, este ia ensinando o caminho até que chegámos à casa do " Símbolo da Liberdade" (o homem das canções do meu pai, o poeta que tanto me encantava, o cantor que tanto me fascinava, o meu ídolo, que de tanto o ouvir desde criança já trauteava todas as suas canções, o homem da liberdade, da fraternidade e da igualdade que continua vivo na minha casa, pois os meus filhos adoram-no, porque a pedido deles adormeciam muitas vezes ao som das suas canções. O homem que marcou a história da cultura portuguesa, o homem livre que nunca se deixou amarrar por teias partidárias, o homem de causas e valores, o poeta, compositor e cantor, desprendido de bens materiais, que entregou a sua vida á cultura, à liberdade e à defesa dos mais desfavorecidos).
O carro parou perto da sua casa, eu vi-o logo e exclamei, " está ali e vai embora...!", mas não, o Zeca passeava nervosamente junto à sua casa, o Fausto conhecedor do companheiro avisou, "está com o mau feitio...mas passa logo". As apresentações foram feitas, perguntou pelo Zé, dada a explicação, ficou satisfeito, pois a viagem assim seria melhor, brincou irónicamente com a ausência do Sérgio sem deixar de ser crítico, eu mantinha-me calado e incrédulo com o encontro, só pensava que iria viajar e privar com ele muito tempo e ainda ia ser brindado com a sua actuação ao vivo pela primeira vez. Era tempo de embalar a trouxa e zarpar, pois a viagem era longa, já na estrada e mais solto o homem dos "vampiros" vira-se para para trás e atira: "- Ó puto tambem já andas nisto?! "-Fiquei siderado e timidamente disse: "- Já senhor Zeca Afonso." "Senhor..! Ó rapaz nunca mais me trates por senhor, eu quero que sejas meu camarada e os camaradas, são camaradas, não têm idade e tratam-se sempre por tu." Galhofada geral, apesar de tudo senti-me emproado como um pavão e orgulhoso pensei no que ele me disse e fiquei a idolatrá-lo mais. A viagem passou num ápice, perto de Coimbra sugeriu que fossemos lá lanchar, anuímos e parámos, não tinha preferência por nenhum café, só o queria fazer na rua Direita.Já na mesa do café disse-nos que já não cantava em Aveiro desde o Congresso, que se sentia ligado á Cidade aonde nascera e que apesar de não ligar nada a futebol, ficava sempre contente com os triunfos do Beira.Estava feliz e expansivo, deliciou-nos com histórias da sua vida.
Já em Aveiro depois de jantarmos, esperava-o o auditório da Gulbenkian apinhado de gente, todos eles eram estrelas, mas ele sem querer era a mais cintilante. Manuel freire, Fausto e Zé Mário Branco começaram a aquecer a plateia, estava a chegar a sua vez, nos bastidores dou com ele sentado no chão com convulsões, fico apavorado, tento pedir ajuda, o Fausto vendo a minha aflição, agarra-me fraternalmente e diz-me que é sempre assim antes das actuações, aconselha-me calma, mas fico intrigado porque ninguém faz nada, avisado que era a sua vez sobe para o palco e por magia tudo passa e solta a sua voz como nunca para gaúdio de todos. Foi um espectáculo memorável e um dia para mim tão cheio e gratificante que nunca na vida esquecerei.
Fez ontem 20 anos que nos deixou com tanto e tão pouco, pois estou convencido que se durasse mais tempo muito mais vasta e rica seria a sua obra.
A sua Cidade como já é habitual não se lembrou dele, quando todas as cidades o querem adoptar, estes esbilros que estão no poder, desprovidos de qualquer sentimento e de nível cultural, primaram pelo ostracismo. A diarreia mental de que padecem, não lhes deu visão para analisar que este homem, está acima de qualquer ideologia ou credo, foi um vulto de valores e honra seja feita a muitos democratas de direita, que não tiveram pejo e complexos de elogiar a sua obra e a sua personalidade. Mas esta direita no poder no nosso burgo, alem de asininos tem tiques saudosistas dos fascistas.
Mas tu Zeca, que recusaste a Ordem da Liberdade, também não ias gostar de te ver laureado por esta espécie, ficarás muito mais feliz por saberes que o puto que conheceste da tua terra e tantos outros que beberam de ti alguns valores e são livres, não tem que dar explicações quando atiram à direita ou á esquerda em defesa da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Já são muitos como tu, que na hora de lutar e votar, o fazem no mal menor.
ATÉ UM DIA CAMARADA.